Santidade:
CUBA o recebe com afeto e respeito e sente-se
honrada com sua presença. Aqui encontrará um povo
solidário e instruído que tem como objetivo atingir
a justiça e que tem feito grandes sacrifícios.
De
José Martí aprendemos a prestar culto à dignidade
plena do homem e herdamos a fraterna fórmula que
seguimos até hoje: "com todos e para o bem de
todos".
Cintio Vitier, intelectual insigne e cristão,
escreveu que "o verdadeiro rosto da Pátria... é o
rosto da justiça e da liberdade" e que "a nação não
tem outra alternativa: ou é independente ou deixa de
ser em absoluto".
A potência mais poderosa que a história conheceu
tenta despojar-nos, infrutuosamente, do direito à
liberdade, à paz e à justiça. Com virtude patriótica
e princípios éticos, o povo cubano tem feito
resistência tenaz, sabendo que também exercemos um
direito legítimo quando seguimos nosso próprio
caminho, quando defendemos nossa cultura e a
enriquecemos com a contribuição das ideias mais
avançadas.
Sem razão, Cuba é caluniada, mas nós confiamos em
que a verdade, da qual jamais nos afastamos, sempre
se abre passagem.
Após 14 anos da visita do papa João Paulo II a
nossa Ilha, o bloqueio econômico, político e da
mídia contra Cuba continua e, inclusive, tem-se
acirrado no setor financeiro. Como aparece no
memorando norte-americano de 6 de abril de 1960,
revelado décadas depois, seu objetivo continua sendo
(cito)"... causar fome, desespero e o colapso do
governo".
Contudo, a nação continua, invariavelmente,
mudando tudo o que deve ser mudado, conforme as mais
altas aspirações do povo cubano e com a livre
participação nas decisões mais importantes de nossa
sociedade, incluídas as econômicas e sociais que, em
quase todo o mundo, são patrimônio de estreitas
elites políticas e financeiras.
Várias gerações de compatriotas se juntaram na
luta por elevados ideais e objetivos nobres. Temos
enfrentado carências, mas nunca faltado ao dever de
compartilhar com os que menos têm.
Somente, como demonstração de quanto se poderia
fazer, caso prevalecesse a solidariedade, menciono
que na última década, com a ajuda de Cuba se
formaram dezenas de milhares de médicos de outros
países, se devolveu ou melhorou a vista a 2,2
milhões de pessoas de baixas rendas e contribuímos a
ensinar a ler e a escrever a 5,8 milhões de
analfabetos. Posso garantir-lhe que, dentro das
modestas possibilidades de que dispomos,
continuaremos com nossa cooperação internacional.
Santidade:
Comemoramos o 4º centenário da descoberta e
presença da imagem da Virgem da Caridade do Cobre,
que leva bordado em seu manto o brasão nacional.
A recente peregrinação da Virgem pelo país todo,
uniu nosso povo, crentes e não crentes, num
acontecimento de muito significado.
Estão a sua espera Santiago de Cuba, protagonista
de episódios gloriosos na história de lutas dos
cubanos por sua definitiva independência, bem como o
povoado do Cobre, onde a coroa espanhola teve que
conceder a liberdade aos escravos sublevados nas
jazidas, oitenta anos antes da abolição de tão
infame instituição em nosso país.
Estamos satisfeitos das estreitas relações entre
a Santa Sé e Cuba, que se desenvolveram sem
interrupção durante 76 anos, sempre baseadas no
respeito mútuo e na coincidência em assuntos vitais
para a Humanidade.
Nosso governo e a igreja católica, apostólica e
romana, em Cuba, mantemos boas relações.
A Constituição cubana consagra e garante a total
liberdade religiosa de todos os cidadãos e, sobre
essa base, o governo tem boas relações com todas as
religiões e instituições religiosas em nosso país.
Santidade:
Há quase 20 anos que Fidel surpreendeu muitos,
quando proclamou que "uma importante espécie
biológica está em perigo de desaparecer, pela rápida
e progressiva liquidação de suas condições naturais
de vida: o homem", concluiu.
Existem ameaças crescentes à paz e a existência
de enormes arsenais nucleares é outro perigo grave
para o ser humano. A água e os alimentos serão,
depois do petróleo, a causa das próximas guerras de
despojo. Com os recursos que se dedicam a produzir
armas mortíferas, poderia eliminar-se a pobreza. O
desenvolvimento vertiginoso da ciência e da
tecnologia não está a serviço da solução dos grandes
problemas que afetam os seres humanos.
Com freqüência, servem para criar reflexos
condicionados ou para manipular a opinião pública.
As finanças são um poder opressivo.
Em lugar da solidariedade, se generaliza uma
crise sistêmica, provocada pelo consumo irracional
nas sociedades opulentas. Uma pequena parte da
população acumula enormes riquezas, enquanto
aumentam os pobres, os famintos, os doentes sem
atendimento médico e os desabrigados.
No mundo industrializado, os "indignados" não
suportam mais a injustiça e, especialmente entre os
jovens, cresce a desconfiança dos modelos sociais e
ideologias que destroem os valores espirituais e
produzem exclusão e egoísmo.
É certo que a crise global também tem uma
dimensão moral e que prevalece a falta de união
entre os governos e os cidadãos aos que dizem
servir. A corrupção da política e a falta de
democracia verdadeira são mazelas do nosso tempo.
Nestes e noutros temas apreciamos a coincidência
com suas idéias.
Ante tantos desafios, Nossa América se une em sua
soberania e tenta uma integração mais solidária,
para tornar realidade o sonho bicentenário de seus
próceres.
Sua Santidade poderá dirigir-se a um povo de
convicções profundas, que o escutará atento e
respeitoso.
Em nome da Nação, dou-lhe as mais calorosas boas-vindas.
Muito obrigado.