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Prêmio Nacional do Humor 2012
Mireya Castañeda
APENAS dois monólogos permitiram ao público apreciar
que Osvaldo Doimeadiós é um ator ao qual não se pode
colocar etiquetas. Aí está sua atuação
extraordinária no imenso Santa Cecilia e seu já
reconhecido humor sóbrio, reflexivo e comunicativo
em Aquícualquier@.
Agora que recebeu, mais que merecidamente, o Prêmio
Nacional do Humor 2012, reconhecimento do Ministério
da Cultura e o Conselho Nacional das Artes Cênicas e
do Centro Produtor do Humor, resgatamos esta
entrevista realizada depois da estreia desse último
monologo, onde o popular ator revisita alguns de
seus mais populares personagens da televisão, Margot
e Feliciano, com outros de recente criação.
Durante aproximadamente uma hora e meia, Doimeadiós,
tira literalmente seus personagens da mochila, muda
de roupa diante do público, dialoga e reflete com
ele sobre temas da atualidade cubana, que são também
universais, unindo o humor branco, a sátira, o
costumbrismo e a música.
Cruce de Calabazas?
Osvaldo Doimeadiós nasceu em Holguín (26/11/1964) e
não em Cruce de Calabazas, lugar surgido de uma
“piada casual”. Contou ter sido “um menino
extremamente doentio” e para passar o tempo, me
enchiam de livros. Era muito pequeno e li Bocagem”.
Muito cedo, começou a atuar na radioemissora de sua
cidade natal, nada menos com Cumbres Borrascosas,
que lhe criou “uma certa disciplina, um certo
respeito e também, uma ética”.
Depois, viriam as escolas de arte (não seria músico,
mas ator) e a entrada no Instituto Superior de Arte
(ISA). Ali, “em 1987, estando no quinto ano do
curso, montamos o grupo Sala-manca, sem nenhuma
pretensão de importância, mas com a sã intenção de
divertir-nos e divertir, em primeiro lugar aos
internos”. Sala-manca existiu até 1997, um grupo que
realizou um trabalho teatral, com piadas agudas e
não comentários burlescos sobre temas do momento.
No ano de 1990, Doimeadiós e outros
fundaram o Centro Promotor do Humor, estimulando em
toda a Ilha, a criação de um humor diferente do
ponto de vista conceitual, profissional e artístico.
O ator tornou-se humorista e muitos não o perdoam
por ter abandonado o drama, como agora não o perdoam
o regresso ao humor. Mas Doimeadiós pensa muito
claramente: “Eu me considero ator. Não gosto de
separar os ramos da árvore”.
Que tempo precisou para preparar Aquícualquier@, um
espetáculo de quase duas horas?
“Creio que é preciso muito tempo. A gente vê os
resultados de um trabalho e apenas vê o imediato,
mas este é um trabalho que fiz para uma produção com
a EGREM, um DVD, um espetáculo de humor, e tratei de
incluir coisas recentes, mas que fosse uma viagem
através de meus personagens, de situações nas quais
me envolvi no humor destes 20 anos, sem amarrar-me à
cronologia, mas com uma coerência que a própria
história me servisse para ir entrando ou não
nalgumas coisas. O espetáculo como tal, eu o
preparei em cinco meses, incluindo as letras das
canções. David Álvarez fez a produção musical.
Tratei de equilibrar o trabalho onde estivessem
presentes diversas maneiras de abordar o humor,
desde o humor branco, as piadas populares, o humor
negro, a sátira social e política que o público
precisa e que tínhamos evitado durante tantos anos,
e creio que é importante fazê-la porque é um
mecanismo que o espectador tem para tirar o peso de
cima.
“A sátira é uma filha legítima do humor e é preciso
mostrá-la e combiná-la. Tudo isso dentro um
espetáculo que tivesse um projeto visual, de
cenografia, de vestuário, por mais simples que seja,
porque muitas vezes, os espetáculos que vemos têm,
às vezes, boas intenções e propostas, mas não
conseguem porque têm um projeto deficiente, porque
outros elementos que formam a encenação não confluem
bem. Tratei de cuidar tudo e, nestes cinco meses de
trabalho, todas as coisas se integraram”.
Alguns consideram que o cubano ri, caçoa, mas não é
reflexivo. Como você pensa?
“Efetivamente, talvez a média dos cubanos tem que
ver mais com a caçoada, com não refletir a fundo,
deixar sem profundidade, na superfície. Eu vejo o
humor como algo que produz sentimentos, um bem
espiritual; não concebo um espetáculo de humor no
qual as pessoas ficam bravas, lacerada, lastimadas,
mas um humor que apele aos sentimentos mais nobres
do ser humano e talvez, em alguns momentos, seja um
pouco ferino, mas acredito que é preciso chegar a um
limite e voltar com o espectador. Há espectadores
que ficam na média e outros vão mais além, na
reflexão e o fazem comigo. Acredito que é uma viagem
em companhia, não a faço sozinho; é preciso criar
uma confiança desde o princípio, para que depois me
sigam às zonas onde eu quero que cheguem”.
Se tivesse que definir o humor que nasce...
“É difícil para mim. Será porque não gosto muito das
classificações, trato de fugir delas. Quando saio
para atuar, saio para jogar, com as palavras, a
caracterização dos personagens, inclusive a música,
para que o público desfrute”.
Osvaldo Doimeadiós é um nome chave da atuação em
Cuba. Sabe, pode, desdobrar-se em diversos
personagens, seja no drama (Fedra, Ceremonia para
actores desesperados, Tartufo), ou no humor (La
divina moneda e Hablando en cubano). Não
gratuitamente, acaba de receber o Prêmio Nacional de
Humor 2012. No dizer do júri, pelo “desempenho
excepcional nesse campo”.
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