NINGUÉM sabe exatamente quantas
organizações não-governamentais (ONGs) permanecem
atualmente no Haiti. Acontece que, quando há dois
anos, o terremoto abriu a fenda à ajuda humanitária,
na nação — conhecida como o país das ONGs — já
existia o capitalismo do desastre. Centenas destas
organizações recorreram ao socorro e com elas suas
supostas ajudas benéficas, as quais, hoje, sabemos
que jamais chegaram completamente ao povo.
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Centenas de
ONGs mostraram-se
solidárias quando o terremoto
de 2010 e muitas delas ajudaram
muito em vários setores, mas
atualmente se desconhece quantas
permanecem no Haiti. |
Contudo, embora não tenhamos dúvida
do papel importante que muitas desempenharam na
saúde, no ensino e na habitação, porque, para sermos
realistas, em etapa de emergência qualquer apoio é
bem recebido, a catástrofe somente intensificou a
dependência da ajuda internacional e, pior ainda, a
presença de ONGs capitalistas, que viram no caos a
chance de aumentar os milhões de suas contas
pessoais.
A onda de solidariedade que mexeu o
mundo era canalida através dessas organizações, que
colocaram em seus sites, números de telefone e
contas bancárias para que as pessoas efetuassem
transferências de dinheiro. Para termos uma ideia,
estima-se que foram doados US$ 1,6 bilhão e mais de
US$2 bilhões, no total, para a recuperação, nestes
últimos anos.
O descontrole, a falta de supervisão
dos fundos e a precariedade do país, deram passagem
a uma das maiores concentrações de organizações
humanitárias per capita no planeta. O impacto do
neoliberalismo converteu a ajuda num negócio
rentável. Com a bandeira da beneficência, as ONGs
assentaram-se em hotéis e casas luxuosas, enquanto a
maioria dos habitantes de Porto Príncipe continuava
nos campos de refugiados, padecendo as consequências
do sismo.
Onipresentes em todo o território,
as ONGs ganharam força e notoriedade. Não obstante,
após dois anos, seus montantes milionários não estão
diretamente ligados às causas de apoio e ajuda
humanitária. Seria bom então perguntar-se, quão
eficaz tem sido o trabalho das ONGs? , pois o Haiti
recebeu apenas um centavo em cada dólar, os outros
99 centavos ficaram nas bolsas dessas organizações.
Um artigo da agência AP,
publicado na imprensa local, revela que dos US$ 379
milhões destinados pelos Estados Unidos, 43 centavos
em cada dólar foram dirigidos a ONGs ou a
organizações internacionais, como Save the Children
e o Programa Mundial de Alimentos (PMA). Além de que
os principais beneficiários da ajuda norte-americana
foram seus próprios militares, enviados durante a
emergência.
Igualmente, um estudo do site
www.Counterpunch informa que o Fundo Clinton-Bush
arrecadou, desde janeiro de 2010, US$ 54 milhões e
financiou, com US$ 2 milhões, a construção dum
hotel, cujo custo ascendia a US$ 29 milhões. Uma
reportagem publicada, em 12 de janeiro de 2012, pela
revista Correio Internacional, indica que as ONGs
estadunidenses se apropriaram da maior parte do
dinheiro oferecido para ajudar o Haiti. Exemplo
disto é que a muito conhecida Usaid, empregara menos
de 1% dos US412 milhões destinados para a
reconstrução.
Por outra parte, a ONU informou que,
dos US$ 2,4 bilhões de fundos para operações
humanitárias, mais de 30% retornou aos países
doadores para pagar a seus cidadãos, envolvidos na
resposta depois do desastre.
Tanto dinheiro, com o pretexto da
caridade, e somente uma mínima parte chegara a seus
verdadeiros destinatários. Em definitiva, quanto
recebeu o governo haitiano? Em recentes declarações,
o presidente Michel Martelly denunciou que os
recursos das ONGs têm sido utilizados para a compra
de carros e casas de luxo. Entretanto, dos US$ 5,3
bilhões prometidos a seu governo, somente têm sido
transferidos US 1,2 bilhão. Nem sequer o presidente
pode especificar onde foram investidos todos esses
fundos manipulados pelas ONGs , que supostamente
trabalham na reconstrução da nação mais pobre da
América.
A atual administração foi categórica
e expressou a necessidade de receber os fundos para
ter um melhor controle e, caso forem recebidos pelas
ONGs, os representantes devem reunir-se com as
autoridades, para conhecer as prioridades dos
haitianos.
A verdadeira questão está na
administração dos recursos arrecadados por estas
organizações. O assunto é difícil, mas nada é
impossível. Em várias ocasiões, Martelly expressou
que o Haiti não quer nada de presente. Para lutar
pela soberania, a caridade oportunista não é uma
opção.